“Alguém poderá até me ver falando sozinho, respondendo as próprias perguntas que faço, talvez nem perceba que falo com meu anjo da guarda que o chamo carinhosamente de Déborah.”
Chovia.
Era uma chuva fina, mais intensa. O véu de noiva que cai sobre a cidade de Sobral, nossa Princesa do Norte só era visível nos ângulos de luz dos faróis do carro ou das luzes dos refletores que iluminava a Catedral da Sé destacando os fios d’ água no meio da noite que já avizinhava.
Sobre a ponte Dr. José Euclides, nós deslumbramos no final do contorno do espelho d’água a outra ponte que mais parecia feita de luzes que refletia nas águas silenciosa da barragem vertedoura onde a princesa se banhava. Enquanto dirigia respondia as infinitas perguntas de Barbarah. Ela questionava tudo. O por quê disso? Por que aquilo? Quem construiu aquilo? O que era aqui no passado? O passado a que se refere é sempre na época que eu era menino, segundo ela gostaria de ter me conhecido: “Você seria o meu melhor amigo, painho.“ . Então sempre volto ao passado para lhe contar as minhas travessuras, coisa que ela adora.
Percebo que Babu tem vocação para historiadora, ou quem sabe, uma grande escritora. Mas voltando ao nosso passeio. Enquanto Barbarah conversava comigo, no outro extremo do nosso diálogo, em silêncio como um anjo da guarda que velas nossos sonhos, Déborah observava tudo sorrindo num mundo de paz celestial. Os pneus do carro salpicavam cacos de espelhos d’água deixados pela chuva na avenida Mons. Aluízio Pinto, jogando-os sobre os canteiros.
A escuridão naquela avenida ( hoje iluminada) era tanta que eu me sentia como um solitário vaga-lume rasgando a treva que tentava nos engolir sem piedade.
_ Pai, pra que tanto porte aqui se não tem uma lâmpada para acender? – Observou Barbarah apontando para os portes “ dorminhocos” e perfilados ao longo da avenida
- Sabe que não sei. – Respondi brincando. E sem entendermos o por que daquilo, cairmos na gargalhada, fazendo Debinha sorrir discretamente. ( percebi pelo retrovisor, pois Babu ligou a lâmpada interna para ler uma de minhas poesias ainda inéditas que cochilava no porta luva.
Tornei-me mais atento à estrada que os faróis do carro desenhava, em segundos , na minha frente depois sumir na escuridão.
Ficamos em silêncio. Neste momento Babuzinha se vira rapidamente para questionar sua irmã. - O que foi Bebê? – . Era a Déborah que até então permanecia só nos observando e ao notar que havíamos parado de conversar, se aproximou de Barbarah e pôs a sua mãozinha nos lábios dela como se pedisse que continuasse a fazer suas perguntas.
Era essa a senha para que falássemos algo que quisesse ouvir ou perguntar. Percebi que Debinha há anos queria saber de tudo aquilo que há pouco ouviu, era como se a sua voz, prisioneira de uma síndrome há anos, conseguia fuga naquele momento nos lábios de sua irmã. Foi um momento sublime para mim. Senti como se Deus colocasse suas mãos em meu coração, tamanha a paz que me invadiu.
Fez-se um silêncio tão concreto naquele momento, que eu poderia vê-lo. Então, desde aquela noite, sempre que saímos só nós dois, eu me transformo em seu guia turista e faço para ela as perguntas que sei que não consegue dizer. Assim passeamos todos os dias e quem passa por nós, nem sabe que no banco detrás do carro vai um anjo da guarda me guiando por caminhos de luz, em silêncio.
Alguém poderá até me ver falando sozinho, respondendo as próprias perguntas que faço, talvez nem perceba que falo com meu anjo da guarda que o chamo carinhosamente de Déborah.
Alguns momentos poderá não vê-la ao meu lado e pensará que estou passeando sem ela. Porém, se mesmo assim perceber que falo sozinho, fique certo de que ela está comigo. É você que não está conseguindo vê-la, pois Déborah, ás vezes, fica também invisível assim como todos os anjos da guarda.
Transcrito do Livro: O Diário de Déborah Autor Vaumirtes Freire – O Poeta do Silêncio
